Quero ser aposentada
A aposentadoria feita à mão de Dona Aracy

Esses dias fui a um encontro de amigas de infância. Lá pelo meio da conversa, lembrando da nossa época de escola, uma delas lançou:
“Ru, você se lembra o que disse para a Dona Terezinha, quando ela perguntou o que você queria ser quando crescesse?”
Eu não lembrava. Ela disse que eu respondi: aposentada!
Todos caímos na risada. Mas a verdade é que isso não foi uma piada. Foi um desejo sincero.
Desde pequena eu via meus pais correndo. Na verdade, nem os via. Era trabalho na clínica, na Apae, em outra cidade também. Quando finalmente chegava o fim de semana, eles estavam exaustos.
Em contrapartida, via minha avó, aposentada. Ela não se movia muito porque tinha diversos problemas de saúde, mas pintava quadros com flores lindas. Cuidava das flores vivas também, se abaixando com cuidado para tirar as folhas secas. Rezava seu terço com as mãozinhas trêmulas. Dava para ver sua fé pelos seus olhos apertados enquanto balbuciava seus pedidos a Deus. Fazia doce de abóbora com cal. Sagu. Charuto de repolho.
Pedia para eu ir até a Quitanda da Landa comprar doce de leite em pedaço para mim e cocada para ela. De vez em quando, um saquinho com mini chocolates que ela escondia no seu armário.
No final do mês, ela pegava a caderneta dessa quitanda (que na verdade era uma mercearia, vendia de tudo) e somava para ver o quanto precisava pagar. Lembro especialmente dela pegando seus óculos e colocando na ponta do nariz enquanto buscava o lápis. Tudo dela era feito à mão.
Sinto saudade de ver minha avó. Hoje dou muito mais valor aos dias que passei com ela. Foram 15 anos de convivência diária. Mas mudei de assunto um pouco. A saudade faz essas coisas com a gente.
Voltando ao ponto: quero ser aposentada como minha avó foi. Ativa, mesmo com movimentos limitados. Alguém que pode ser vista pelas pessoas, que pode estar presente. E descansar. Ah, como quero descansar! Afinal, nasci para isso. Minha professora segue viva e pode confirmar.
Para quem quiser conhecer um pouco sobre minha outra avó, a paterna, aqui está.


Incrível como os outros.
Me vi muito nesse texto com o convívio que tive com os meus pais e meus avós desde a minha infância até o inicio da minha vida adulta.